As festas estão a chegar. Natal, passagem de ano, reencontros, gargalhadas, brindes que se multiplicam e aquela sensação de leveza que só quem está rodeado de amigos entende.
Mas há uma verdade que não pode ficar esquecida entre copos levantados: o álcool e o volante nunca combinaram.
Por mais confiante que alguém se sinta, a condução sob o efeito de álcool continua a ser uma das principais causas de morte nas estradas portuguesas, especialmente nesta altura do ano, quando as operações stop da GNR e da PSP se multiplicam para travar comportamentos de risco.
O que podia ser uma noite de celebração pode transformar-se, num segundo, em tragédia.
Este artigo não é sobre proibições: é sobre escolhas. Sobre a diferença que uma decisão consciente pode fazer entre uma vida interrompida e uma história que continua.

As épocas festivas, seja o Natal, a passagem de ano, o verão ou os grandes festivais, trazem um aumento natural do consumo de álcool. E, com ele, o risco de acidentes na estrada.
Muitos condutores acreditam que “só um copo não faz mal”. Mas a ciência e as estatísticas dizem o contrário:
O álcool não é um estimulante, como muitos pensam. É um depressor do sistema nervoso que reduz a atenção, o tempo de reação, o equilíbrio e a perceção de distância. Mesmo em pequenas quantidades, o julgamento fica comprometido e o corpo deixa de reagir com a mesma rapidez a um imprevisto.
Por isso, quando o tema é condução, a única escolha segura é zero álcool. Sem “mas”, sem exceções.
Em Portugal, um em cada quatro condutores que morrem na estrada tem álcool no sangue acima do limite legal, segundo dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).
E, desses, três em cada quatro apresentam taxas iguais ou superiores a 1,2 g/l — o que já é considerado crime.
De acordo com dados divulgados pelo Público em janeiro de 2025, um quinto de todas as mortes nas estradas portuguesas está relacionado com o álcool ao volante. E o cenário repete-se noutros países europeus: segundo a Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), 25% das mortes na estrada na Europa estão ligadas ao consumo de álcool, o que mostra que este é um problema global de comportamento, não apenas de fiscalização.
Mas para lá dos números, há o que não cabe nas estatísticas: famílias destruídas, filhos que ficam sem pais, amigos que não voltam para casa.
É por isso que cada decisão conta. Decidir não conduzir depois de beber é, no fundo, decidir proteger vidas. A sua e a dos outros.
Os números mais recentes da ANSR mostram que o problema do álcool ao volante continua longe de estar resolvido.
Segundo o Relatório de Sinistralidade, Fiscalização e Contraordenações Rodoviárias de março de 2025, quase metade das detenções rodoviárias (44,5%) esteve relacionada com condução sob o efeito do álcool, um aumento de mais de 50% face ao mesmo período de 2024.
Entre janeiro e março, as autoridades realizaram mais de 560 mil testes de álcool, um acréscimo de 15% face ao ano anterior. E, mesmo com o reforço da fiscalização, a taxa de infração subiu de 1,3% para 1,5%, mostrando que ainda há quem insista em conduzir depois de beber.
Estes dados reforçam a importância das campanhas de sensibilização e da mensagem de tolerância zero ao álcool ao volante. Porque, apesar dos alertas e das alternativas seguras que existem, continuam a ser registadas centenas de detenções e acidentes evitáveis.
Veja aqui todos os Relatórios de Sinistralidade da ANSR.
A legislação portuguesa é clara:
A partir destes valores, as penalizações variam entre coimas de 250 e 2.500 euros, perda de pontos na carta e inibição de conduzir até dois anos. Acima de 1,2 g/l, a condução passa a ser crime, com pena de prisão até um ano ou multa até 120 dias, conforme o artigo 81.º do Código da Estrada.
A ANSR tem vindo a discutir a possibilidade de reduzir o limite legal de álcool na condução para 0,2 g/l, igualando o nível atualmente aplicado a condutores profissionais e recém-encartados. A proposta reflete uma tendência europeia de tolerância zero e visa reduzir ainda mais a sinistralidade associada ao consumo de álcool.
Mas mais importante do que saber as coimas, é perceber o porquê da lei: existe para salvar vidas, não para as complicar. E, a prevenção começa muito antes da multa: começa no momento em que alguém decide não pegar no carro depois de beber.
Pode ler mais sobre o que diz a lei portuguesa nesta temática no artigo sobre taxa de álcool no sangue.
A nível europeu, o Parlamento Europeu aprovou em 2025 uma revisão das regras das cartas de condução, com foco em maior formação sobre riscos ligados ao álcool, drogas e distração. O objetivo é claro: atingir zero mortes nas estradas até 2050, no âmbito da iniciativa “Visão Zero”.

Antes de pegar no carro, há um teste simples que todos devíamos fazer: um teste de consciência. Não precisa de tecnologia nem de cálculos: só de honestidade consigo próprio.
Pergunte-se:
Se respondeu “sim” a alguma destas perguntas, a resposta certa é clara: não conduza.
O álcool altera o julgamento e o tempo de reação muito antes de se sentir “bêbedo”. E, quando o corpo já dá sinais, a capacidade de conduzir em segurança há muito que ficou comprometida.
Não é preciso um teste de alcoolemia para saber: a única taxa segura ao volante é 0,0 g/l. Se há dúvidas, escolha o caminho mais responsável. Espere, descanse ou peça boleia. Porque chegar bem a casa é o melhor final para qualquer festa.
A melhor forma de evitar um erro é planear antes de abrir a primeira garrafa. Hoje, há opções seguras e acessíveis para regressar a casa sem riscos.
Segundo um estudo recente da Uber, divulgado pelo Diário de Notícias, 64,5% dos condutores portugueses afirmam planear usar a Uber quando saem para beber, precisamente para evitar conduzir sob o efeito de álcool. O mesmo inquérito revelou ainda que 88,5% dos utilizadores consideram a condução com álcool um problema sério em Portugal, e que 83% acreditam que a Uber ajuda a reduzir esse risco.
Esta tendência mostra algo importante: cada vez mais pessoas estão conscientes de que a decisão responsável começa antes da festa.
Além da Uber, há várias outras alternativas simples:
O segredo está em planear. Porque quando a noite é bem pensada, a viagem de volta também é segura.
Um levantamento europeu publicado pela Euronews em março de 2025 revelou que Portugal está entre os países com maior percentagem de condutores que admitem ter conduzido depois de beber, a par de Itália e Bélgica. Mais do que um dado curioso, é um alerta: o problema é cultural e só se resolve com mudança de mentalidade, não apenas com fiscalização.
A nível nacional, a ANSR tem procurado inverter esta tendência através da iniciativa Visão Zero 2030, que define como meta reduzir em 50% as vítimas mortais e feridos graves até 2030 e atingir zero mortes nas estradas até 2050.
A estratégia ainda está em fase de implementação, mas o objetivo é inequívoco: proteger vidas deve estar acima de qualquer coima ou estatística.
Festejar é bom. Partilhar momentos é o que dá cor à vida. Mas celebrar com responsabilidade é o verdadeiro sinal de maturidade.
A mensagem é simples e direta: tolerância zero ao álcool ao volante. Porque cada vida salva começa com uma decisão consciente — e essa decisão pode ser a sua.
Zero álcool, sempre. Pela sua segurança, pela dos outros, e porque nenhuma festa vale uma vida.