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O preço invisível do vidro automóvel: o que está a mudar por trás de cada para-brisas

Num momento em que a Europa debate competitividade, autonomia industrial e sustentabilidade, o setor do vidro automóvel surge como um reflexo claro das tensões que atravessam toda a indústria. Energia mais cara, cadeias de abastecimento pressionadas e tecnologia cada vez mais integrada estão a redefinir a forma como produzimos, reparamos e mantemos os veículos.



O aumento dos custos, a crescente complexidade dos sistemas ADAS e as metas de descarbonização não são fenómenos isolados. Juntos, compõem uma nova equação que exige decisões mais informadas, eficientes e responsáveis em toda a cadeia automóvel.

A energia como motor do custo

A indústria do vidro plano, base para muitos vidros automóveis, é altamente dependente da energia — uma realidade evidenciada no relatório Energy prices and costs in Europe da Comissão Europeia, que mostra como os setores mais intensivos em energia continuam sob forte pressão.

 

Segundo a Glass for Europe, a associação que representa os fabricantes europeus de vidro plano, apesar das dificuldades causadas pelos altos custos de energia, pela pressão competitiva de mercados fora da UE e pela volatilidade logística, o setor mantém-se relevante, produzindo cerca de 10 milhões de toneladas de “flat glass” por ano na União Europeia.

 

Mais importante: segundo o relatório Energy prices and costs in Europe, da Comissão Europeia, os preços industriais do gás e da eletricidade na União Europeia continuam significativamente mais elevados do que nos principais parceiros comerciais, penalizando de forma particular os setores intensivos em energia.

 

Este enquadramento macroeconómico ajuda a explicar a pressão sentida pela indústria do vidro europeia, identificada pela Glass Alliance Europe, que aponta os elevados custos energéticos como um dos principais fatores de perda de competitividade do setor.

 

Estima-se que os custos de energia para fabricantes europeus de vidro subiram quase 10% em 2024 devido ao aumento dos combustíveis e às políticas de emissões. O resultado é que produzir vidro “normal” já custa mais; e quando se trata de vidro automóvel, que pode requerer acabamentos especiais, laminados, aquecidos ou com sensores, essa base mais cara aumenta a complexidade.

Matérias-primas e pressão global na cadeia

vidro para-brisas a ser fabricado por máquina

custo das matérias-primas (areia, soda-ash, dolomita, etc.) tem-se mantido relativamente estável, mas a logística, a energia incorporada e as exigências de qualidade têm pressionado as margens do setor.

 

No relatório da Glass Alliance Europe para 2024-25, a indústria do vidro plano afirma que a produção foi “estabilizada”, mas continua exposta a riscos como a intensificação da competição, o aumento das importações fora da UE e os elevados custos de energia.

 

Para o setor automóvel, tudo isto significa que o custo do componente vidro já não pode ser visto como marginal. Influi diretamente no custo de substituição que, por sua vez, se reflete no preço para o consumidor, na apólice de seguro, no custo para a oficina e no orçamento das marcas.

Impacto em toda a cadeia automóvel

Além do aumento do custo do próprio vidro, a complexidade crescente dos para-brisas modernos também pesa na fatura. Veículos equipados com sistemas de assistência ao condutor (ADAS), câmaras, sensores ou aquecimento tornam cada substituição mais exigente (e mais cara) devido à necessidade de peças específicas, calibrações e processos adicionais que impactam tempo, logística e certificação.

 

De facto, um estudo da AutoBolt mostra que 89% dos veículos lançados a partir de 2023 exigem calibração do sistema ADAS após a substituição do para-brisas, quando, em 2016, essa necessidade abrangia apenas 25% dos modelos.

 

Adicionalmente, o mercado europeu de reparação de colisões (incluindo vidro e calibração) está estimado em cerca de USD 86,8 mil milhões em 2025, com crescimento contínuo — um sinal claro de que os custos de reparação e substituição estão a aumentar.

 

Em resumo: vidro mais caro + tecnologia mais complexa + necessidade de calibração = custos crescentes para toda a cadeia automóvel.

Reparar primeiro: uma escolha inteligente

Se a peça sobe de custo e a complexidade se intensifica, faz todo o sentido que a reparação (quando for segura) ganhe protagonismo face à substituição. Além disso, de acordo com a publicação da Belron® Group (grupo ao qual a Carglass® pertence), uma reparação típica do para-brisas gera cerca de 16,4 kg CO₂e, enquanto uma substituição padrão gera cerca de 82,3 kg CO₂e. Ou seja, uma reparação origina cerca de 80% menos emissões.

 

Isto não é apenas um dado ambiental. É uma equação de custo: menor produção de vidro, menor transporte, menor montagem, menos desperdício. Tudo isto se traduz em benefício para o cliente, para os operadores do setor e para o planeta.

 

Em tempos de energia cara e custos energéticos voláteis, reparar “quando possível” deixa de ser apenas bom senso. Torna-se uma vantagem competitiva.

O que o setor deve fazer para equilibrar custo, segurança e sustentabilidade?

A mudança estrutural no preço do vidro é um alerta — e também uma oportunidade.

 

O setor automóvel, as seguradoras e os decisores políticos têm agora a possibilidade de redesenhar a forma como gerem o ciclo de vida de um componente que é tudo menos “simples”. 

 

Estas são, na nossa perspetiva, quatro prioridades concretas:

 

 

1️. Tornar o “reparar primeiro” a norma, não a exceção

 

As políticas de seguro e os modelos de negócio devem premiar a reparação sempre que for tecnicamente segura. Hoje, o custo médio de substituição de um para-brisas com ADAS pode ultrapassar os 1.000 euros em muitos modelos, um valor que pesa tanto para o condutor como para a seguradora. Incluir critérios de reparação segura nos contratos e nas métricas de sustentabilidade (como emissões evitadas por sinistro) ajudaria a equilibrar custo e impacto ambiental.

 

 

2️. Acelerar a descarbonização da produção de vidro

 

O fabrico do vidro automóvel está entre os processos industriais mais intensivos em energia na Europa. De acordo com a Glass Alliance Europea energia representa normalmente entre 20% e 35% dos custos totais de produção, dependendo do tipo de vidro e do preço da energia. Este peso torna urgente acelerar o investimento em soluções de baixo carbono, como fornos elétricos ou híbridos, utilização de hidrogénio verde e reaproveitamento de calor residual.

 

Ainda assim, esta transição só será viável com políticas estáveis e incentivos claros, como os previstos na reforma do Sistema Europeu de Comércio de Licenças de Emissão (EU ETS) pós-2030, que visa apoiar os setores mais intensivos em energia no caminho para a descarbonização.

 

 

3️. Investir na manutenção preventiva e digitalização das oficinas

 

Quanto mais cedo um dano é avaliado, maior a probabilidade de ser reparado com segurança. A tecnologia (sensores, apps, inteligência artificial) pode ajudar a detetar microfissuras, avaliar o risco e encaminhar o veículo para uma oficina antes que a substituição seja inevitável.

Este é o caminho para um modelo de reparação preditiva, mais eficiente e sustentável.

 

 

4️. Educar o consumidor e as frotas para a importância do vidro

 

O para-brisas é um componente estrutural do veículo, não apenas uma superfície transparente. Contribui para a rigidez da carroçaria, suporta sistemas ADAS e influencia até a eficiência energética do automóvel. Por isso, comunicar com clareza essa importância, tanto a clientes individuais quanto a gestores de frota, é fundamental. E isso significa explicar o quê, de forma direta:

  • Quando é seguro reparar e quando a substituição é obrigatória
  • Como a calibração dos sistemas ADAS impacta a segurança e o custo final do serviço
  • Porque agir rapidamente evita que um dano pequeno evolua para substituição
  • Como uma reparação evita emissões e reduz o desperdício.

 

Só com esta comunicação concreta é possível criar a mudança cultural que o setor precisa.

 

Em vez de apenas reagir à substituição, devemos antecipar, cuidar, avaliar, agir. Esse é o caminho para uma mobilidade mais económica, mais sustentável e mais responsável.