O que ter em conta na hora de comprar um carro elétrico?

Trocar para um elétrico é mais do que escolher um modelo giro e ligar o cabo. Para fazer uma boa compra, vale a pena olhar para quatro frentes: autonomia realcarregamento (em casa e na via pública)bateria (garantia e degradação)incentivos fiscais/apoios.

 

Neste artigo encontra tudo o que precisa para comparar, calcular e escolher com segurança o seu primeiro (ou próximo) carro elétrico.

1. Autonomia: a que interessa é a real, não só a do catálogo

Carro elétrico vermelho ligado ao carregador, a ser carregado

Os valores de autonomia que aparecem nas fichas técnicas seguem o ciclo WLTP (Worldwide Harmonized Light Vehicles Test Procedure). É útil para comparar modelos, mas feito em condições padrão e pode divergir do uso diário. Em cidade, a autonomia tende a ser maior; em autoestrada e com frio, costuma baixar.

 

Como estimar a autonomia “do dia a dia”:

 

1. Pegue na autonomia WLTP e aplique um desconto consoante o seu padrão:

 

  • Autoestrada a ritmo constante: considere −20% a −30% (varia por modelo e condições).
  • Inverno com aquecimento: acrescente mais margem de segurança.

 

2. Verifique o tamanho da bateria (kWh) e a eficiência (kWh/100 km). Dois carros com a mesma bateria podem ter autonomias diferentes. Basta, terem pesos diferentes.

 

Se a rotina inclui 50 a 80 km diários e há carregamento noturno em casa, um elétrico com WLTP de 250 a 300 km chega para usar sem ansiedade. Se faz viagens longas frequentes, privilegie >400 km WLTP e boa potência de carga DC para encurtar paragens.

 

Quer saber quais são os modelos elétricos com maior autonomia? Veja o nosso ranking e compare as opções.

2. Carregamento: onde, como e quanto tempo

Escolher um carro elétrico implica também perceber onde vai carregá-loquanto tempo demoraquanto vai pagar por cada carga. É aqui que a rotina de cada condutor faz toda a diferença.

 

Carregar em casa (o cenário mais barato e previsível)

 

Instalar uma wallbox é a forma mais prática e previsível de carregar um elétrico.

 

  • Potências mais comuns: 7,4 kW11 kW ou 22 kW;
  • Regra simples: 7 kW ≈ +40 km de autonomia por hora de carga (varia por modelo e eficiência);
  • Com tarifa bi-horária, carregar durante a noite sai consideravelmente mais barato.

 

Custo médio de carregamento doméstico

 

  • Tarifa noturna: 0,17 euros/kWh;
  • Carregar 40 kWh (por exemplo, de 20 % a 90 % numa bateria de 60 kWh) custa cerca de 6,80 euros;
  • Se o carro consome 16 kWh/100 km, o custo é de cerca de 2,70 euros por cada 100 km (muito abaixo do custo com combustíveis fósseis).

     

Dica: para garantir que o carregamento é seguro e rápido, verifique a instalação elétrica antes de adquirir a wallbox. O Fundo Ambiental comparticipa 80 % do custo de compra e instalação em condomínios.

 

Carregar na via pública

 

A rede pública cresce todos os anos e já cobre praticamente todo o país. Existem três tipos principais de postos:

 

  • Lentos (AC ≤ 7 kW): demoram mais de oito horas, ideais para estacionamentos longos;
  • Semirrápidos (AC 7–22 kW): demoram entre duas a quatro horas;
  • Rápidos e ultrarrápidos (DC 50–350 kW): recuperam 10–80 % da bateria em cerca de 20 a 45 minutos.

     

Tempo real de carga: depende sempre da menor potência entre o carro, o posto e o cabo, por isso, confirmar esse dado antes da compra é essencial.

 

Exemplos práticos para perceber o custo de cada carregamento

 

Os preços variam por operador, tipo de posto e local. Além do custo por kWh, há taxas de sessão ou por minuto.

 

Tipo de carregamento

Energia reposta

Custo total aprox.

Custo por 100 km

Doméstico
(0,17 €/kWh)

40 kWh

6,80 €

2,70 €

Público semirrápido
(0,30 €/kWh + 0,40 € sessão)

40 kWh

12,40 €

4,80 €

Público rápido
(0,45 €/kWh + 0,65 € sessão)

40 kWh

18,65 €

7,20 €

 

Valores médios indicativos - use as suas tarifas reais para estimar com maior precisão.

 

O que realmente muda a fatura?

 

Nem todos os carregamentos custam o mesmo e há, essencialmente, quatro fatores que fazem a diferença no valor final:

 

1. O preço do kWh. O custo da eletricidade varia consoante o contrato que tem em casa e o operador do posto público. Carregar com tarifa bi-horária durante a noite pode ser quase metade do preço de um posto rápido na autoestrada.

 

2. As taxas aplicadas nos postos públicos. Além do preço por kWh, os operadores costumam cobrar uma taxa por sessão ou por minuto ligado. Tal significa que deixar o carro ligado depois de atingir 100 % pode sair caro, especialmente em carregadores rápidos (DC).

 

3. A eficiência do carro. Nem todos os elétricos gastam o mesmo. Um carro mais pesado ou menos aerodinâmico consome mais kWh por cada 100 km, o que encarece o custo por viagem. Compare sempre o consumo médio (kWh/100 km) entre modelos (é o equivalente elétrico dos “litros aos 100”).

 

4. O tipo de carregamento. Carregar até 80 % é mais rápido e eficiente; os últimos 20 % da bateria demoram mais tempo e podem custar mais, sobretudo em postos públicos. Planear as cargas em viagens longas faz diferença na poupança e no tempo de espera.

3. Bateria: garantia, saúde e boas práticas

Carro elétrico branco ligado ao carregador

A bateria é o coração de qualquer carro elétrico. E também o ponto que mais dúvidas levanta. Afinal, é ela que dita a autonomia, o desempenho e o valor do carro a longo prazo.

 

A boa notícia? As baterias atuais são muito mais duráveis do que se pensa. A maioria dos fabricantes oferece garantia de oito anos ou 160.000 km, assegurando que a bateria mantém pelo menos 70 % da capacidade nesse período. Em muitos casos, na prática, a perda é inferior a 2 % por ano.

 

Adicionalmente, quase todos os modelos têm sistemas de gestão térmica que controlam automaticamente a temperatura da bateria, evitando sobreaquecimentos e otimizando a eficiência - algo que não acontecia nas primeiras gerações de elétricos.

4. Incentivos e benefícios à compra de carros elétricos

Apoios à compra

 

  • Particulares: incentivo de 4.000 euros para veículos 100 % elétricos novos, com preço até 38.500 euros (IVA incluído) e desde que o candidato entregue para abate um veículo a combustão com mais de 10 anos. Se o veículo tiver mais de 5 lugares, o teto sobe para 55.000 euros;
  • Empresas: incentivo de 6.000 euros para a aquisição de até dois veículos elétricos novos;
  • IPSS e entidades sociais/autarquias: incentivo de 5.000 euros por veículo, com regras de teto semelhantes às dos particulares.

     

As candidaturas começaram a 31 de março de 2025, ficam abertas por 45 dias ou até se esgotar o orçamento (dotado com 13,5 M euros para 2025).

 

Benefícios fiscais e empresariais

 

  • Isenção de ISV e IUC para veículos 100 % elétricos;
  • Para empresas: dedução total do IVA na aquisição, até limites definidos e isenção de tributação autónoma (até 62.500 euros) para veículos elétricos.

 

Apoio à instalação de carregadores em condomínios

 

  • Incentivo de 80 % da compra do carregador, até 800 euros por equipamento;
  • Incentivo de 80 % da instalação elétrica associada, até 1.000 euros por lugar;
  • Cada condómino pode candidatar-se a um carregador; limite de até 10 carregadores por condomínio/CPE;
  • Os carregadores devem estar ligados à rede Mobi.E;
  • O apoio inclui a tarifa EGME (rede elétrica) por dois anos para os Detentores de Ponto de Carregamento (DPC).

 

Para saber mais sobre os apoios à compra de carros elétricos, tanto para particulares como para empresas, leia o nosso artigo.

5. Como comparar modelos de forma objetiva

Escolher um carro elétrico pode ser mais simples se focar nos critérios certos:

 

  1. Autonomia útil: escolha de acordo com o seu uso real. Se conduz até 80 km por dia e carrega em casa, 300 km WLTP chegam; se faz viagens longas, procure +400 km;
  2. Potência de carregamento: verifique quantos kW o carro aceita em AC (casa) e DC (viagem). Quanto maior, mais rápido carrega;
  3. Espaço e conforto: avalie a bagageira, o espaço traseiro e a posição dos bancos (as baterias elevam o piso);
  4. Custos reais: simule o custo por 100 km com as suas tarifas (casa vs. rede pública) e veja diferenças entre modelos;
  5. Tecnologia e garantias: compare apps, assistência à condução, garantia da bateria e rede de oficinas;
  6. Teste antes de decidir: um test-drive revela mais do que qualquer ficha técnica - autonomia percebida, conforto e resposta ao volante.

6. Manutenção e inspeção: o que muda nos carros elétricos

Um dos grandes mitos sobre os carros elétricos é que “não precisam de manutenção”. É verdade que as revisões são mais simples e espaçadas, mas continuam a ser fundamentais para garantir segurança e eficiência.

 

Os elétricos não têm embraiagem, nem mudanças de óleo, filtros ou velas de ignição, o que reduz significativamente os custos de manutenção. Ainda assim, há componentes que exigem verificação periódica: sistema de travagem (apesar da travagem regenerativa, há desgaste), pneus, suspensão, filtros do habitáculo e software do sistema elétrico.

 

Em média, as revisões custam 20 a 30 % menos do que num carro a combustão e ocorrem normalmente a cada 30 000 km ou dois anos, dependendo do fabricante.

 

E quanto à inspeção periódica?

 

Os carros elétricos também têm de cumprir inspeções obrigatórias, tal como os restantes veículos. A diferença é que o foco está em componentes como travões, direção, luzes e estrutura, e não nas emissões.

 

Para saber quando e como é feita a inspeção num carro elétrico, leia o nosso artigo sobre inspeção periódica obrigatória em veículos elétricos.

7. Perguntas rápidas para saber se fez a escolha certa

Antes de fechar negócio, responda a estas perguntas. Se a maioria das respostas for “sim”, está no bom caminho para escolher o carro elétrico certo para si:

 

  • Vai carregar em casa? Então pode optar por uma bateria mais pequena e poupar no preço de compra. Como já vimos, o carregamento doméstico é o mais económico e previsível;
  • Não tem onde carregar? Prefira um modelo com maior autonomia e boa potência de carregamento rápido (DC), para repor energia facilmente nos postos públicos;
  • Faz viagens longas? Procure mais de 400 km de autonomia WLTP e carregamento rápido acima de 100 kW, para paragens curtas e eficientes;
  • Vive num condomínio? Confirme se pode instalar uma wallbox e candidatar-se ao apoio do Fundo Ambiental (80 % de comparticipação);
  • Precisa de mais espaço? Os modelos de 6 ou 7 lugares também têm direito a incentivos (até 55.000 euros);
  • Conduz sobretudo em cidade? Um elétrico compacto com 250–300 km de autonomia e boa regeneração de travagem será mais prático e económico;
  • Valoriza tecnologia e conforto? Compare os pacotes de condução assistida, apps de monitorização e sistemas de pré-climatização - hoje, muitos vêm de série.

 

Se ainda não tem a certeza se um carro elétrico é o ideal para si, descubra as principais vantagens e desvantagens antes de tomar a decisão final.

 

 

Comprar um carro elétrico é mais do que uma mudança de motor: é uma nova forma de conduzir, poupar e pensar o dia a dia. Com as escolhas certas, o investimento compensa e a estrada fica mais sustentável para todos.